Santos Marta, Maria e Lázaro: A Família de Betânia que o Céu Amou
Conheça a história de Marta, Maria e Lázaro, os três irmãos que foram amigos íntimos de Jesus. Descubra as lições de serviço, contemplação e esperança que esta família santa nos deixou.
EVANGELHO DO DIA COMENTADO
catolicohoje
7/29/20266 min ler


Santos Marta, Maria e Lázaro: A Família de Betânia que o Céu Amou
Poucas vezes o Evangelho nos permite espiar o interior de uma casa com tanta transparência como naquela da pequena aldeia de Betânia, a cerca de três quilômetros de Jerusalém. Ali, aos pés do Monte das Oliveiras, vivia uma família que não era sacerdotal, não era real, não tinha linhagem ilustre. Seus nomes, no entanto, ficaram gravados para sempre no coração da Igreja: Marta, Maria e Lázaro. Eram amigos de Jesus. E, como disse o próprio Salvador, não há maior amor do que dar a vida pelos seus amigos (cf. Jo 15,13) — e Jesus não só deu a vida por eles, como também lhes devolveu a vida, ressuscitando Lázaro do túmulo.
Desde o dia 29 de julho de 2021, por determinação do Papa Francisco, a Igreja passou a celebrar os três irmãos juntos numa única Memória, unindo o que sempre foi unido na liturgia da caridade doméstica. Porque a santidade deles não é individualista; é comunitária, familiar, tecida no cotidiano de refeições partilhadas, conversas demoradas e lágrimas enxugadas. Mergulhemos, pois, na história e na espiritualidade desses três gigantes da amizade divina.
Betânia: o refúgio do Verbo Encarnado
Betânia era um pequeno povoado que o Evangelho de João situa a “cerca de quinze estádios” de Jerusalém (Jo 11,18), ou seja, aproximadamente três quilômetros. Seu nome, em hebraico, Beth Anya, significa “casa da aflição” ou “casa do pobre”. Era um lugar de acolhida para peregrinos, e talvez por isso mesmo tenha se tornado o lugar de acolhida do próprio Deus que se fez peregrino entre os homens.
Foi ali que Jesus encontrou um espaço raro em sua vida pública: o descanso da amizade. Depois de enfrentar a hostilidade dos fariseus, a incompreensão das multidões, a dureza dos doutores da Lei, Ele se retirava à casa de Betânia, onde o recebiam não como um taumaturgo famoso, mas como amigo. O amor de Jesus por essa família é explicitamente declarado pelo evangelista: “Jesus amava Marta, sua irmã e Lázaro” (Jo 11,5). Não é uma afirmação genérica; é uma declaração de intimidade. Nesta casa, o Verbo Encarnado era simplesmente hóspede, confidente, parte da mesa.
Marta: a discípula ativa que confessou o Cristo
Marta aparece em três cenas evangélicas, e cada uma revela uma faceta de sua alma. Na primeira, narrada por Lucas (Lc 10,38-42), ela está “atarefada com os muitos serviços” da casa, enquanto sua irmã Maria está sentada aos pés de Jesus, ouvindo sua palavra. Marta, com a familiaridade de quem se sente à vontade, chega a repreender o Mestre: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que me ajude”. A resposta de Jesus não é uma condenação, mas uma correção amorosa: “Marta, Marta, andas inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada”.
A tradição patrística viu nessa cena a distinção entre a vita activa (vida ativa) e a vita contemplativa (vida contemplativa). Marta não é censurada por servir — o serviço é santo e necessário —, mas por se deixar consumir pela inquietação a ponto de perder o centro, que é Cristo. A lição de Marta é atualíssima: podemos estar tão ocupados com as coisas de Deus que nos esquecemos do Deus das coisas.
Na segunda cena, a que lemos no Evangelho da festa de hoje, Marta sai ao encontro de Jesus depois da morte de Lázaro e trava com Ele um diálogo teológico de altíssima densidade. É ela, a ativa, a pragmática, quem faz a confissão de fé que Pedro fará em Cesareia de Filipe: “Sim, Senhor; eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” (Jo 11,27). Na terceira cena, Marta aparece servindo à mesa na ceia de Betânia, depois da ressurreição de Lázaro (Jo 12,2). Agora ela serve sem queixa, sem ansiedade, em paz. A graça a curou da agitação.
Maria: o silêncio que escuta e o amor que se derrama
Maria de Betânia é a contemplativa. Na tradição da Igreja latina, durante séculos ela foi identificada com Maria Madalena e com a pecadora anônima que ungiu os pés de Jesus (cf. Lc 7,36-50). Hoje a exegese distingue as figuras, mas a liturgia conserva o perfume dessa unção como ícone de Maria de Betânia.
Em Lucas 10,39, ela está “sentada aos pés do Senhor, ouvindo a sua palavra”. É a postura do discípulo por excelência. Na cultura judaica, sentar-se aos pés de um rabino era privilégio dos homens; Maria rompe essa barreira sem alarde, atraída unicamente pelo magnetismo da Palavra. Jesus a defende com vigor, declarando que ela escolheu a “melhor parte”, que não lhe será tirada. A expressão latina unum necessarium (uma só coisa é necessária) resume o coração da espiritualidade de Maria de Betânia.
No capítulo 12 de João, Maria unge os pés de Jesus com um perfume de nardo puro, de grande valor, e os enxuga com seus cabelos. A casa inteira se encheu de fragrância (cf. Jo 12,3). Aquele gesto era uma profecia: ela ungia o corpo de Cristo para a sepultura, antecipando a unção que as mulheres não puderam fazer na manhã da Páscoa. Judas Iscariotes criticou o “desperdício”, mas Jesus a defendeu: “Deixai-a; ela guardou este perfume para o dia da minha sepultura” (Jo 12,7). Maria nos ensina que o amor verdadeiro não calcula; derrama-se. A lógica do Reino não é a do utilitarismo, mas a da gratuidade.
Lázaro: o amigo que provou a morte e a ressurreição
Lázaro, cujo nome em hebraico El-azar significa “Deus ajudou”, é o protagonista do maior milagre de Jesus antes da própria Paixão. Sua morte e ressurreição ocupam o capítulo 11 de João e são o prelúdio imediato da decisão do Sinédrio de matar Jesus. Lázaro já estava no túmulo havia quatro dias quando o Senhor chegou — tempo suficiente para que, segundo a crença judaica, o espírito se afastasse definitivamente do corpo e a decomposição começasse. O milagre, portanto, não deixa margem para dúvidas: não se trata de um desmaio ou de uma cura; é uma verdadeira ressurreição.
Jesus, diante do túmulo, chorou. A frase mais curta da Bíblia — “Jesus chorou” (Jo 11,35) — revela a humanidade do Verbo, que não é insensível à dor da perda. Mas logo em seguida ordenou: “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11,43). E o morto saiu, com as mãos e os pés atados com faixas. A palavra de Jesus, que um dia chamará todos os mortos de seus túmulos, antecipa-se naquele cemitério de Betânia.
Segundo a tradição, Lázaro viveu ainda muitos anos após a ressurreição. A Legenda Áurea e antigos martirológios contam que, perseguido pelos judeus, foi colocado com Marta, Maria e outros discípulos num barco sem velas nem remos, e aportou milagrosamente na costa da Provença, no sul da França. Ali teria se tornado o primeiro bispo de Marselha e, por fim, sofrido o martírio. A sua vida pós-ressurreição tornou-se um sermão silencioso: muitos, ao vê-lo, criam em Jesus, porque aquele homem era a prova viva de que a morte não tem a última palavra.
As lições dos três irmãos para a Igreja hoje
Os três santos de Betânia nos oferecem um tríptico da vida cristã. Marta ensina o valor do serviço, desde que purificado da ansiedade e centrado em Cristo. Maria ensina a primazia da escuta, da contemplação, do amor gratuito que não mede esforços. Lázaro ensina a esperança na ressurreição e o testemunho de uma vida que, mesmo tendo passado pela morte, foi restaurada para a glória de Deus.
A casa de Betânia é imagem da Igreja, e também de cada lar cristão. Ali há trabalho (Marta), oração (Maria) e amizade com Jesus (Lázaro). As três dimensões são necessárias. Uma casa sem serviço se torna egoísta; uma casa sem contemplação se torna ativista e ansiosa; uma casa sem a presença de Jesus, ainda que tenha o serviço e a oração, perde o essencial. Ubi Christus, ibi vita — onde está Cristo, aí está a vida.
Os Padres da Igreja viram na família de Betânia um modelo de hospitalidade. São Bernardo de Claraval, em seus sermões, compara a alma que acolhe o Verbo a Betânia, a casa da pobreza bem-aventurada. E nós, como acolhemos Jesus em nossa casa interior? Somos Marta, sempre ocupados, mas esquecidos do Hóspede? Somos Maria, que largou tudo para escutar? Somos Lázaro, que experimentou a morte e a ressurreição?
Oração aos Santos Marta, Maria e Lázaro
Ó gloriosos irmãos de Betânia, amigos íntimos do Senhor Jesus, ensinai-nos a fazer de nossa vida uma casa hospitaleira para Deus. Santa Marta, padroeira dos que servem, libertai-nos da ansiedade que sufoca a graça. Santa Maria, mestra da contemplação, comunicai-nos o dom do silêncio que escuta. São Lázaro, testemunha da ressurreição, fortalecei nossa esperança na vitória sobre a morte. Intercedei por nossas famílias, para que, como a vossa, sejam lugares onde Jesus encontre descanso e amizade. Amém.
Santos Marta, Maria e Lázaro, rogai por nós!
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