Evangelho do Dia Comentado: Lc 7,36-50 – A Pecadora que Amou Muito | Quinta-feira, 17 de Setembro de 2026
Jesus é ungido por uma pecadora na casa de Simão, o fariseu. Uma reflexão sobre o amor que brota do perdão, a hipocrisia do julgamento e a paz que só Cristo pode dar.
EVANGELHO DO DIA COMENTADO
catolicoHoje - Pe. Xavier
9/16/20266 min ler


Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 7,36-50
Naquele tempo, um fariseu convidou Jesus para comer em sua casa. Jesus entrou na casa do fariseu e pôs-se à mesa. Havia na cidade uma mulher que era pecadora. Sabendo que Jesus estava à mesa na casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume. Colocando-se por detrás, aos pés de Jesus, chorando, começou a molhar-lhe os pés com as lágrimas e os enxugava com os cabelos. Beijava-lhe os pés e os ungia com o perfume. Ao ver isso, o fariseu que o havia convidado disse consigo mesmo: “Se este homem fosse profeta, saberia quem é a mulher que o toca e que espécie de mulher ela é: uma pecadora!” Jesus tomou a palavra e disse-lhe: “Simão, tenho algo para te dizer”. Ele respondeu: “Dize, Mestre”. “Um credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e outro cinquenta. Como não tivessem com que pagar, ele perdoou a ambos. Qual deles o amará mais?” Simão respondeu: “Aquele a quem perdoou mais”. Jesus lhe disse: “Julgaste bem”. Voltando-se para a mulher, disse a Simão: “Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; ela, porém, molhou os meus pés com as suas lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste um beijo; ela, porém, desde que entrei, não parou de beijar os meus pés. Não me deste óleo para a cabeça; ela, porém, ungiu os meus pés com perfume. Por isso, eu te digo: os seus muitos pecados estão perdoados, porque ela amou muito. Mas aquele a quem pouco é perdoado, pouco ama”. Então Jesus disse à mulher: “Os teus pecados estão perdoados”. Os convidados começaram a pensar: “Quem é este que até perdoa pecados?” Jesus disse à mulher: “Tua fé te salvou. Vai em paz”.
O contraste que revela dois corações
Lucas nos apresenta uma cena de rara intensidade, construída sobre um contraste cortante. De um lado, Simão, o fariseu, homem respeitável, cumpridor da Lei, que convida Jesus para jantar, mas o recebe com frieza. Do outro, uma mulher anônima, conhecida na cidade como hamartōlós — “pecadora”, provavelmente prostituta —, que entra na casa sem ser convidada, movida por um amor que não se importa com as convenções sociais.
O texto grego diz que ela epignoûsa — “tendo sabido” — que Jesus estava à mesa. Ela sabia quem era Jesus. E, sabendo, veio. Não foi chamada, não foi convidada, não tinha lugar naquela casa. Mas o amor encontra caminhos que a lei não prevê. Ela traz um alábastron — um vaso de alabastro, pedra fina e caríssima, usada para guardar perfumes preciosos. O vaso é o símbolo da sua vida: fechado, valioso, mas guardado para o prazer dos outros. Agora ela o quebra aos pés de Jesus.
As lágrimas que lavam e os cabelos que enxugam
A cena é de uma intimidade desconcertante. A mulher se coloca opísthō — “por detrás”, aos pés de Jesus. O verbo grego é klaíousa — “chorando”, no particípio presente, indicando um choro contínuo, que não para. As lágrimas não são de remorso apenas; são de amor, de gratidão, de esperança. Ela molha os pés de Jesus com as lágrimas e os enxuga com os cabelos. Na cultura judaica, soltar os cabelos em público era sinal de vergonha para uma mulher; era algo que só se fazia na intimidade do lar. Mas ela não se importa. O amor a despojou de todo pudor.
O verbo usado para “enxugar” é exémassen, que significa limpar, secar completamente. Ela não apenas enxuga; ela seca os pés de Jesus com os cabelos, num gesto de humildade e ternura que só quem amou muito pode compreender. Depois, katephílei — “beijava”, no imperfeito, indicando repetição: beijava os pés de Jesus repetidamente, sem parar. O beijo era um sinal de reverência e de afeto. Ela beija os pés que em breve serão pregados na cruz. E, por fim, ēleiphen — “ungia” — os pés com o perfume. O verbo é o mesmo usado para a unção de reis e sacerdotes. Ela unge Jesus como Messias, como Rei, como Sacerdote.
O julgamento silencioso de Simão
O fariseu observa tudo e, no silêncio do seu coração, julga. O texto diz que ele eîpen en heautō — “disse dentro de si mesmo”. O pensamento não é pronunciado, mas Jesus o conhece. Simão pensa: “Se este homem fosse profeta, saberia quem é a mulher que o toca”. A lógica farisaica é implacável: um profeta verdadeiro não se deixaria tocar por uma pecadora. O contato com o impuro contamina. Simão não vê uma mulher arrependida; vê uma pecadora. Não vê o amor; vê o escândalo.
Jesus toma a palavra e conta uma parábola curta e devastadora. Um credor tinha dois devedores: um devia quinhentos denários, outro cinquenta. Nenhum dos dois tinha com que pagar, e o credor perdoou a ambos. “Qual deles o amará mais?” Simão responde com lógica: “Aquele a quem perdoou mais”. Jesus confirma: “Julgaste bem”. E, voltando-se para a mulher, aplica a parábola com uma série de contrastes que expõem a frieza de Simão e a grandeza da pecadora.
A hospitalidade que faltou e o amor que sobejou
Jesus enumera três gestos de cortesia que Simão omitiu: não lhe deu água para os pés, não lhe deu um beijo de saudação, não lhe ungiu a cabeça com óleo. Eram gestos comuns de hospitalidade no Oriente. Simão convidou Jesus, mas não o honrou. Sua casa estava aberta, mas seu coração, fechado. Ele queria ver Jesus, mas não queria se comprometer com Ele.
A mulher, ao contrário, fez o que Simão não fez, e muito mais. Ela lavou os pés de Jesus com lágrimas, enxugou-os com os cabelos, beijou-os sem parar, ungiu-os com perfume. O verbo grego para “ungiu” é ēleipsen, que também pode ser traduzido como “perfumou”. Ela deu a Jesus o que tinha de mais precioso. O amor não calcula; derrama-se.
Jesus conclui: “Por isso, eu te digo: os seus muitos pecados estão perdoados, porque ela amou muito. Mas aquele a quem pouco é perdoado, pouco ama.” A frase é de uma profundidade teológica imensa. Não é que o perdão seja a recompensa do amor; é o amor que brota do perdão. Ela amou muito porque foi perdoada muito. O perdão precede o amor. A graça antecede a resposta. Mas a resposta do amor é a prova de que a graça foi acolhida.
“Os teus pecados estão perdoados”: a palavra que escandaliza
Jesus pronuncia a sentença que só Deus pode pronunciar: “Apheōntai soi hai hamartíai” — “Os teus pecados estão perdoados”. O verbo aphíēmi significa “soltar”, “deixar ir”, “cancelar uma dívida”. É o mesmo verbo usado na parábola dos dois devedores. Jesus não apenas declara o perdão; Ele o realiza. Ele é o credor que perdoa. Ele é Deus.
Os convidados ficam escandalizados: “Quem é este que até perdoa pecados?”. A pergunta ecoa no coração de todos os que não reconhecem a divindade de Cristo. Só Deus pode perdoar pecados. Se Jesus perdoa, ou é blasfemo, ou é Deus. Não há terceira via. Os convidados, como os fariseus de outros episódios, não querem dar o passo da fé. Ficam no escândalo.
Jesus, porém, não se detém. Volta-se para a mulher e diz: “Hē pístis sou sésōkén se” — “A tua fé te salvou”. O verbo sōzō significa ao mesmo tempo “curar” e “salvar”. A fé dela não foi um sentimento vago; foi um ato concreto, expresso em lágrimas, beijos e perfume. A fé que salva é a fé que se traduz em amor. E o amor que se traduz em gestos é a prova da fé.
“Vai em paz”: a despedida que restaura
A última palavra de Jesus à mulher é “Poreúou eis eirēnēn” — “Vai em paz”. A paz, no hebraico shalom, não é apenas ausência de conflito; é plenitude, integridade, comunhão restaurada. A mulher que entrou na casa como pecadora sai como discípula. A que era conhecida pelos seus muitos pecados agora é conhecida pelo seu grande amor. A que se ajoelhou aos pés de Jesus é levantada e enviada em paz.
A cena termina sem que saibamos o que aconteceu com a mulher. Mas a tradição a identificou com Maria Madalena, ou com a mulher adúltera, ou com a pecadora que ungiu Jesus em Betânia. Pouco importa o nome. O que importa é que ela é o retrato de cada um de nós: pecadores perdoados, chamados a amar muito. O seu gesto é o modelo da nossa resposta à graça: lágrimas de arrependimento, beijos de adoração, perfume de amor derramado.
Breve Oração ou Propósito Prático
Senhor Jesus, que perdoaste a pecadora porque ela amou muito, perdoa também os meus muitos pecados. Dá-me lágrimas de arrependimento, gestos de humildade e um amor que não se envergonhe de Te adorar em público. Que eu não seja como Simão, que Te recebeu com frieza, mas como a mulher, que Te amou com tudo o que tinha. Hoje, quero fazer um gesto concreto de amor a Ti: uma visita ao Santíssimo Sacramento, uma oração mais demorada, ou uma penitência oferecida por amor. E ouvirei a Tua voz: “Vai em paz”. Amém.
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