Mt 9,9-13 – Jesus Chama Mateus, o Publicano, e Come com Pecadores | 10º Domingo do Tempo Comum – 7 de Junho (Ano A)

Jesus chama um cobrador de impostos, senta-se à mesa com pecadores e revela o coração de Deus: “Quero misericórdia, não sacrifício”. Entenda essa revolução.

EVANGELHO DO DIA COMENTADO

CatolicoHoje - Pe. Xavier

6/7/20265 min read

📖 Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 9,9-13

Naquele tempo: 9 Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: "Segue-me!" Ele se levantou e seguiu a Jesus. 10 Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. 11 Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: "Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?" 12 Jesus ouviu a pergunta e respondeu: "Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. 13 Aprendei, pois, o que significa: 'Quero misericórdia e não sacrifício'. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores".

🙏 Reflexão: A Revolução da Mesa Compartilhada

(Entonação inicial: voz calma, mas com uma ponta de mistério.)

Pergunta instigadora (para despertar):
O que você faria se Deus entrasse na casa da pessoa que todos consideram a mais corrupta do seu bairro e dissesse: “Vou jantar aqui”?

(Pausa de 4 segundos. Deixe a pergunta ecoar.)

Jesus não apenas entra na casa de Mateus, o publicano – ele se senta à mesa com ele e com toda a sua turma. Para os fariseus, isso era um escândalo religioso. Para Jesus, era a revelação do rosto do Pai.

1. “Segue-me”: O Chamado que Ultrapassa o Currículo (v. 9)

Mateus estava sentado (καθήμενος – kathēmenos), fixo em seu posto, talvez com a alma tão paralisada quanto o corpo. Publicanos eram odiados: cobravam impostos para Roma, extorquiam o próprio povo, eram considerados traidores e impuros. Ninguém esperava que um rabino os chamasse para algo além de julgamento.

Nuance psicológica (insight de sabedoria antiga):
Quem está “sentado” na cadeira do pecado ou da desonra social pode acreditar que não tem mais jeito. A autopunição congela a pessoa. Jesus, porém, não pergunta o que Mateus fez. Ele não exige confissão prévia. Ele apenas (εἶδεν – eiden: olhar que atravessa a máscara) e ordena: “Segue-me”.

Pergunta instigadora:
Quantas vezes você deixou de dar um passo em direção a Deus porque achou que sua “sujeira” era grande demais?

(Pausa breve.)

Lição 1: O chamado de Jesus não depende do seu passado, mas da sua disposição de levantar e andar.

2. A Mesa dos Pecadores: O Escândalo do Amor (v. 10-11)

Mateus, agora liberto, faz um banquete. Ele quer que seus amigos – os mesmos “pecadores públicos” – também encontrem Jesus. E Jesus aceita o convite.

O verbo grego para “come” é συνεσθίει (synesthiei) – comer junto, compartilhar a mesma refeição, símbolo máximo de aliança e intimidade no mundo antigo. Os fariseus ficam horrorizados: “Como pode? Isso é aprovação do pecado!”

Nuance psicológica (psicologia dos santos – à luz de Santo Agostinho):
Os fariseus projetavam nos outros o que não queriam ver em si: a fragilidade moral. Ao condenar os “pecadores”, eles se sentiam puros. É o mecanismo de defesa da formação reativa – atacar no outro o que se reprime em si. Jesus, ao contrário, não precisa projetar; Ele pode entrar na casa do pecador porque Sua identidade está segura no amor do Pai.

Pergunta instigadora:
Quem é o “publicano” que você evita sentar à mesa? O irmão divorciado? Aquele que pensa diferente? O que esse afeto revela sobre as suas próprias feridas não curadas?

(Pausa de 5 segundos.)

Lição 2: O amor cristão não teme contaminação – ele purifica pela presença.

3. “Misericórdia, não sacrifício”: O Coração de Deus (v. 12-13)

A resposta de Jesus é uma citação de Oseias 6,6: ἔλεος θέλω καὶ οὐ θυσίαν“Misericórdia eu quero, e não sacrifício”.

  • Ἔλεος (eleos) não é um sentimento vago; é a compaixão ativa que se curva sobre a miséria alheia, que se alegra em perdoar.

  • Θυσία (thysia) é o ritual religioso – jejuns, ofertas, práticas – que, sem amor, tornam-se vazios ou, pior, instrumentos de autossatisfação.

Pensamento impactante (entonação mais forte, pausada):
Deus não precisa dos seus holocaustos de vaidade. Ele precisa que você aprenda a curar o ferido, não a classificá-lo.

Jesus se apresenta como médico (ἰατρός – iatros). O médico não foge dos doentes; ele vai ao leito deles. A Igreja, portanto, não é um clube de santos, mas um hospital de pecadores.

Nuance psicológica (Carl Jung, adaptado):
O fariseu é aquele que não acessa sua própria sombra. Ele se vê tão “curado” que nem percebe suas doenças – e por isso não pode ser curado. O pecador que reconhece sua enfermidade está mais perto da graça do que o justo que se orgulha de sua retidão.

Pergunta instigadora:
Você já se permitiu ser “paciente” diante de Deus, ou ainda insiste em usar a máscara do “bom cristão” que nunca precisa de médico?

(Pausa de 6 segundos. Silêncio.)

Lição 3: A santidade não é a ausência de pecado, mas a humildade de reconhecer que precisamos de cura.

4. A Conexão com Oseias e Abraão (entrelaçando as leituras)

  • Oseias (primeira leitura) mostra um Deus que prefere o conhecimento íntimo (דעת – da’at) ao ritual vazio. O profeta viveu um casamento fracassado com uma prostituta para simbolizar que Deus ama até quem a sociedade rejeita. Jesus faz o mesmo: come com publicanos.

  • Romanos 4 (segunda leitura) revela que Abraão creu “contra toda esperança” (παρ’ ἐλπίδα – par’elpida). Ele não tinha méritos – apenas fé. Essa fé lhe foi atribuída como justiça. O mesmo acontece com Mateus: ele não foi chamado por merecimento, mas por graça. E sua resposta (“levantou-se e seguiu”) foi o começo da justiça.

Lição 4: A fé que salva não é a ausência de dúvida, mas a confiança de que Deus quer salvar – especialmente os que se sabem perdidos.

5. “Não vim chamar justos, mas pecadores” (v. 13) – A Frase que Derrete o Orgulho

Esta é a chave de ouro do Evangelho. Jesus não veio para os que já estão bem – esses não precisam de médico. Ele veio para os que sabem que estão doentes. E a primeira doença a ser curada é a pretensão de saúde.

Nuance psicológica (sabedoria dos santos – São João da Cruz):
Para que Deus entre, é preciso que o eu esvazie. O fariseu está cheio de si; não há espaço. O publicano está vazio de méritos, mas aberto à graça. A humildade de dizer “preciso de cura” é a porta para o milagre.

Pergunta final (com tom convocatório, mas amoroso):
Hoje, Jesus passa diante de você. Ele te vê sentado na sua “coletoria” – no seu trabalho, na sua rotina, até nos seus pecados escondidos. Ele te chama: “Segue-me”. Você vai levantar e ir, ou vai continuar sentado, achando que ainda tem tempo?

(Pausa de 7 segundos. Respiração.)

🌟 Conclusão: A Revolução da Mesa Compartilhada

Mateus deixou tudo: dinheiro, status, segurança. Mas antes de partir, ele ofereceu um banquete – e nesse banquete, Jesus foi acusado de comer com pecadores. Qual banquete você pode oferecer hoje? Não precisa ser uma festa com comida – pode ser um olhar de acolhida a quem a igreja e o mundo marginalizam. Pode ser o perdão que você se recusa a dar a si mesmo. Pode ser a admissão humilde: “Estou doente; preciso do Médico.”

(Entonação final: suave, quase sussurrada, como um convite íntimo.)
Deus não quer seus sacrifícios vazios. Ele quer seu coração partido. Porque só corações partidos podem ser enchidos pelo amor que nunca termina.

📿 Oração

Senhor Jesus, que viste Mateus além do posto de impostos e chamaste o pecador pelo nome, olha também para mim. Dá-me a coragem de levantar da minha mesa de egoísmos e seguir-Te. Ensina-me o que significa eleos – misericórdia ativa – e arranca do meu peito a pedra do julgamento. Que eu possa também oferecer um banquete de acolhida aos que considero “indignos”. Amém.