Evangelho do Dia Comentado: Lc 4,31-37 – A Autoridade que Liberta | Terça-feira, 1 de Setembro de 2026

Jesus ensina com autoridade e liberta um homem possesso na sinagoga de Cafarnaum. Uma reflexão sobre o poder de Cristo, a força do Espírito e a libertação do mal.

EVANGELHO DO DIA COMENTADO

CatolicoHoje - Pe. Xavier

9/1/20265 min ler

Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 4,31-37

Naquele tempo, Jesus desceu a Cafarnaum, cidade da Galileia, e ali ensinava aos sábados. As pessoas ficavam admiradas com o seu ensinamento, porque a sua palavra tinha autoridade. Estava na sinagoga um homem possuído pelo espírito de um demônio impuro, que gritou com voz forte: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: o Santo de Deus!” Jesus o ameaçou, dizendo: “Cala-te e sai dele!” O demônio lançou o homem no chão, saiu dele e não lhe fez mal algum. Ficaram todos muito espantados e diziam uns aos outros: “Que palavra é esta? Ele manda nos espíritos impuros, com autoridade e poder, e eles saem!” E a sua fama se espalhava por todos os lugares daquela redondeza.

Cafarnaum: o cenário do encontro

Jesus desce a Cafarnaum, cidade à beira do lago da Galileia, que se tornará o centro de sua missão na Galileia. Lucas usa o verbo katēlthen — “desceu” —, um detalhe geográfico que é também teológico: o Verbo encarnado desce até a vida concreta das pessoas, até as cidades à beira do caminho, até as sinagogas onde o povo se reúne. É sábado, dia do descanso e da escuta. Jesus ensina. E o que impressiona não é o conteúdo, mas a forma: en exousía ēn ho lógos autoú — “a sua palavra tinha autoridade”.

A palavra grega exousía significa autoridade, poder legítimo, direito de agir. Os escribas ensinavam citando rabinos e tradições; Jesus fala com a autoridade de quem é a própria Palavra. Não precisa apoiar-se em autoridades externas; é a fonte. O povo percebe a diferença: ali não está um mestre que repete, mas Alguém que fala de Deus com a intimidade de quem veio de Deus.

O grito que confessa e a ordem que silencia

Na sinagoga havia um homem com pneúma daimoníou akathártou — “espírito de demônio impuro”. A presença de Jesus provoca uma reação imediata. O mal não suporta a santidade. O demônio grita com voz forte: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: o Santo de Deus!”.

O conhecimento do demônio é correto, mas não salva. Ele sabe quem é Jesus — o Santo de Deus —, mas esse saber é desprovido de amor, como diz São Tiago: “Até os demônios creem, e tremem” (Tg 2,19). A confissão do demônio não é louvor; é uma tentativa de controle, de colocar-se diante de Jesus de igual para igual, como quem conhece o nome do adversário para dominá-lo. Além disso, o demônio fala no plural: “Que queres de nós?”. Ele tenta incluir Jesus num “nós” que não existe. Mas Jesus não dialoga com o mal.

A resposta de Jesus é uma ordem, não um diálogo: Phimōthēti — “Cala-te!” — e Éxelthe ap’ autoú — “Sai dele!”. O verbo phimóō significa literalmente “amordaçar”. Jesus coloca um freio na boca do mal. O demônio obedece, mas primeiro lança o homem no chão. Lucas acrescenta um detalhe precioso: mēdèn blápsan autón — “não lhe fez mal algum”. A saída do mal pode ser violenta, mas o poder de Cristo é maior. O homem é restaurado.

A admiração do povo e a pergunta que ecoa

Os presentes ficam en thámbei — “tomados de espanto”. A palavra grega thámbos indica um pasmo profundo, uma mistura de temor e admiração. Eles perguntam: Tís ho lógos hoútos? — “Que palavra é esta?”. Não é a palavra de um exorcista que usa fórmulas; é uma palavra de autoridade e poder. O mesmo lógos que ensinava agora liberta. A Palavra de Jesus é única: ela ilumina e expulsa as trevas; ensina e cura; orienta e salva.

A fama de Jesus se espalha por toda a redondeza. O episódio de Cafarnaum é o paradigma de toda a missão: Jesus veio para desfazer as obras do diabo (cf. 1Jo 3,8). A sinagoga, lugar de escuta da Palavra, torna-se palco da vitória de Deus sobre o mal. A liturgia cristã, herdeira da sinagoga, continua sendo esse lugar onde a Palavra é proclamada com autoridade e os demônios são expulsos pelo poder de Cristo, presente no sacerdote, nos sacramentos e na oração da Igreja.

A conexão com a primeira leitura: o Espírito que sonda

A primeira leitura, da Primeira Carta aos Coríntios, ilumina essa cena. Paulo fala do Espírito Santo que sonda as profundezas de Deus e que nos foi dado para que compreendamos os dons de Deus. “O homem psíquico não aceita as coisas do Espírito de Deus; são loucura para ele. O homem espiritual, porém, julga todas as coisas, e por ninguém é julgado” (1Cor 2,14-15). E termina com uma frase que ecoa o Evangelho: “Nós, porém, temos a mente de Cristo” (1Cor 2,16).

A autoridade de Jesus em Cafarnaum é a autoridade do Espírito. Ele é o homem espiritual por excelência, aquele que possui a mente de Cristo, que é o próprio Cristo. O demônio reconhece essa autoridade, embora não a aceite. O povo percebe que há algo diferente naquela Palavra; mas só os que se abrem ao Espírito podem penetrar o mistério. O Evangelho de hoje nos convida a passar da admiração à fé, do espanto à adesão.

A libertação que continua

O Evangelho não é uma recordação de um passado distante. Ele se cumpre hoje, em cada Eucaristia, em cada Confissão, em cada oração. Cafarnaum é também o nosso coração: uma sinagoga onde Jesus ensina, mas onde às vezes há um demônio escondido — um pensamento impuro, um ressentimento, uma mentira, uma dependência. O grito do mal é audível em nossas angústias; a ordem de Cristo continua eficaz: “Cala-te e sai!”.

Não devemos dialogar com o mal. Não se argumenta com o demônio, não se negocia, não se analisa com simpatia. Apenas se expulsa, no nome de Jesus. O maligno sabe o nosso nome, mas nós conhecemos o Nome que está acima de todo nome. E quando o mal tenta incluir-nos no plural — “que queres de nós?” —, respondemos como Igreja: “Você não tem parte conosco, porque nós pertencemos a Cristo”.

Breve Oração ou Propósito Prático

Senhor Jesus, que em Cafarnaum ensinaste com autoridade e libertaste o homem possesso, fala a Tua Palavra com poder na sinagoga do meu coração. Amordaça os gritos do mal que me perturbam, expulsa os demônios que me escravizam e restaura a minha dignidade de filho de Deus. Dá-me a mente de Cristo, para que eu julgue tudo segundo o Espírito e não segundo a carne. Hoje, quero identificar uma área da minha vida onde o mal ainda grita, e entregá-la à Tua autoridade com confiança. Amém.