Evangelho do Dia Comentado: Mt 28,16-20; O que fazer quando Deus Parece Ausente?| Solenidade da Ascensão do Senhor – 17 de Maio
Diante da despedida de Jesus, a alma humana oscila entre a adoração e a dúvida. Descubra o significado profundo da Ascensão em Mateus 28 e Atos 1 nesta análise teológica e psicológica para o Domingo da Ascensão do Senhor.
EVANGELHO DO DIA COMENTADO
CatolicoHoje
5/15/20264 min read


A Ascensão do Senhor: O que fazer quando Deus Parece Ausente?
Por que temos tanta pressa em olhar para o céu quando a dor aperta, se a promessa do Sagrado foi fincada na terra?
Esta é a ferida aberta no coração humano que a Solenidade da Ascensão do Senhor vem tocar. Celebrar a subida de Jesus ao céu não é cantar um adeus nostálgico, nem validar um Deus que se aposentou da história. É, fundamentalmente, responder ao abismo que se abre na alma quando a presença sensível da Divindade silencia. No texto de Mateus 28,16-20, os onze discípulos voltam à Galileia, ao monte indicado. Ali, experimentam o maior choque de realidade de suas vidas. E nós, hoje, no espelho daquela montanha, nos deparamos com o nosso próprio reflexo: o medo do desamparo.
Exegese de Origem: O Grego que Desmascara a Nossa Fé
Para compreender o que de fato aconteceu no alto daquela montanha, precisamos escavar o texto original em Grego Koiné. O evangelista Mateus escreve uma frase que a tradução em português muitas vezes suaviza ou tenta esconder: “Quando o viram, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram” (Mt 28,17).
A palavra utilizada para "duvidaram" é διστάζω (distázō).
Etimologicamente, distázō não significa uma descrença intelectual ou uma rejeição convicta da verdade. Ela vem de dis (dois) e stasis (posição, estar de pé). Significa, literalmente, "estar em duas direções ao mesmo tempo", vacilar, oscilar como uma balança que não encontra o equilíbrio estável.
Veja a riqueza oculta aqui: no mesmo instante em que os discípulos adoravam, eles também vacilavam. O texto grego nos revela que a fé e a hesitação psicológica habitavam o mesmo peito. Eles viram o Ressuscitado, mas a iminência da Sua partida física os dividiu por dentro.
Logo em seguida, Jesus responde a essa oscilação com o envio: “Ide e fazei discípulos...” — em grego, μαθητεύσατε (mathēteúsate). Não se trata de um mero "fazer prosélitos", mas de gerar uma "escola de imitação". Jesus não pede que eles defendam uma teoria conceitual, mas que introduzam a humanidade em um estilo de vida focado no seguimento de Suas pegadas. Como você tem respondido a esse chamado nas suas dúvidas?
A Resistência ao Amadurecimento da Alma
Sob a ótica da psicologia profunda, a Ascensão representa o doloroso, porém necessário, processo de destestemunho da presença física para que ocorra o nascimento da verdadeira maturidade espiritual.
Os discípulos sofriam de uma dependência arquetípica da figura visível do Mestre. Enquanto Jesus estivesse ali, tocável e audível, eles operavam no modo da "infância espiritual", onde o outro resolve todas as angústias. Em Atos 1,1-11 (a primeira leitura), essa resistência psicológica fica escancarada quando eles perguntam: “Senhor, é por este tempo que vais reconstruir o reino da Judeia?” (At 1,6). O ser humano tem uma tendência crônica de tentar domesticar o Sagrado, reduzindo a eternidade a interesses geopolíticos, institucionais ou egoicos. Queremos que Deus resolva nossos problemas imediatos em vez de nos tornarmos as mãos de Deus no mundo.
Quando Jesus sobe em uma nuvem e os anjos dizem: “Homens da Galileia, por que ficais aí parados, olhando para o céu?” (At 1,11), há uma quebra violenta de projeção.
Quantas vezes você também se pega paralisado, olhando para o teto, esperando um milagre espetacular que o poupe do sagrado esforço de viver e evoluir?
A "psicologia dos santos" — como bem expressou São João da Cruz na sua obra Noite Escura — ensina que o sumiço dos consolos sensíveis de Deus é o método pedagógico divino para testar a nossa fidelidade e autonomia. Jesus se retira do campo de visão exterior para poder habitar o castelo interior da alma. Ele deixa de estar diante deles para passar a estar neles. A Ascensão é a cura cristã para a nossa eterna carência de aplausos e sinais visíveis.
Interatividade Provocativa: O Espelho da Palavra
Diante das crises e silêncios da sua vida, você adora por gratidão ou oscila na incerteza do distázō?
Você tem sido um cristão alienado que apenas "olha para o céu" esperando o tempo passar, ou as suas mãos estão desgastadas na construção real do Reino aqui na terra?
Se a única prova da presença de Jesus na sua família ou no seu trabalho dependesse exclusivamente do seu comportamento hoje, as pessoas acreditariam que Ele está vivo?
Lições Práticas para a Vida Cristã
Acolha a sua ambivalência: Não se condene nos dias em que a dúvida bater à porta da sua alma. Até os apóstolos vacilaram no monte da Ascensão. O segredo da santidade não é ter uma fé sem questionamentos, mas prostrar-se e agir mesmo quando o coração está trêmulo.
Saia da paralisia espiritual: Deus não tolera o imobilismo dos "olhadores de nuvens". A espiritualidade legítima nos empurra para a história, para o serviço aos mais necessitados e para o anúncio corajoso da Verdade.
Viva da promessa final: A última frase do Evangelho de Mateus é a âncora da nossa sanidade mental e espiritual: “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Você nunca mais estará verdadeiramente só.
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