Santo Inácio de Loyola: Discernimento e Missão

Conheça a vida de Santo Inácio de Loyola, o soldado convertido que fundou a Companhia de Jesus e nos ensinou a encontrar Deus em todas as coisas através do discernimento dos espíritos.

ARTIGOSSANTOS E DOUTORES

CatolicoHoje - Pe. Xavier

7/31/20264 min ler

Santo Inácio de Loyola: O Soldado que Aprendeu a Discernir os Passos de Deus

Poucos santos transitaram entre extremos tão opostos com a naturalidade de Santo Inácio de Loyola. Ele foi um cavaleiro vaidoso e um peregrino descalço; um soldado ferido e um mestre de oração; um sonhador de glórias mundanas e um dos maiores estrategistas espirituais da história da Igreja. Sua vida não foi a negação de sua personalidade ardente, mas a sua transfiguração. A disciplina militar que aprendeu nos campos de batalha foi posta a serviço do "Rei Eterno". A ambição de glória foi curada não pela aniquilação, mas pela elevação: Ad maiorem Dei gloriam — "Para a maior glória de Deus".

Hoje, 31 de julho, a Igreja celebra este gigante da espiritualidade, e a sua mensagem continua mais viva do que nunca, especialmente num mundo sedento de critérios para decidir, de mapas para navegar a confusão interior e de sentido para a própria existência.

De Iñigo a Inácio: A Conversão de um Cavaleiro

Iñigo López de Loyola nasceu em 1491, no castelo de Loyola, no País Basco espanhol. Era o filho mais novo de uma família nobre e, como tal, destinado às armas e à corte. Sua juventude foi marcada pela vaidade, pelo desejo de fama e por uma "vida desregrada", como ele mesmo confessaria mais tarde. Serviu ao vice-rei de Navarra e, durante a defesa da fortaleza de Pamplona contra as tropas francesas, uma bala de canhão lhe estilhaçou a perna direita.

Aquele projétil, que aos olhos humanos arruinou sua carreira militar, foi o instrumento da sua conversão. Durante a longa e dolorosa convalescença no castelo de Loyola, Iñigo pediu livros de cavalaria, seus romances favoritos. Mas na casa só havia a "Vida de Cristo" de Ludolfo da Saxônia e a "Legenda Áurea", uma coletânea de vidas de santos. Ele começou a lê-los por tédio, mas logo percebeu que aquelas leituras lhe produziam pensamentos e sentimentos diferentes. Enquanto os sonhos de glória militar o deixavam inquieto e vazio, as histórias de São Francisco e São Domingos lhe traziam uma paz profunda e duradoura.

Ali, no leito de dor, nasceu o discernimento inaciano. Ele começou a notar que existem "moções" interiores distintas: umas vêm de Deus e trazem paz, esperança e caridade; outras vêm do inimigo e deixam inquietação, tristeza e desânimo. Essa descoberta foi o embrião dos seus famosos "Exercícios Espirituais".

O Peregrino e o Fundador

Restabelecido, Iñigo trocou as armas pela bordão de peregrino. Fez uma vigília de armas diante da Virgem de Montserrat, onde pendurou sua espada e se consagrou a Maria. Depois, recolheu-se em Manresa, onde viveu experiências místicas profundas, alternadas com terríveis provações interiores. Foi em Manresa que a sua doutrina espiritual se consolidou, e ele começou a escrever os "Exercícios Espirituais".

Desejando "ajudar as almas", viajou para Jerusalém, mas as circunstâncias o fizeram voltar. Compreendeu então que precisava estudar para ser um instrumento mais eficaz. Já com mais de trinta anos, sentou-se nos bancos escolares ao lado de crianças para aprender latim, e depois frequentou as universidades de Alcalá, Salamanca e Paris. Em Paris, reuniu um grupo de seis companheiros — entre eles Francisco Xavier e Pedro Fabro — e, na capela de Montmartre, em 15 de agosto de 1534, fizeram votos de pobreza, castidade e peregrinação a Jerusalém, ou de se colocarem à disposição do Papa.

Aquele pequeno grupo foi aprovado pelo Papa Paulo III em 1540 como a Companhia de Jesus. O nome militar — "Companhia" — não era por acaso. Inácio via os jesuítas como uma milícia espiritual, uma tropa de elite a serviço do Romano Pontífice e da propagação da fé, especialmente num tempo em que a Reforma Protestante abalava a Europa. Ele foi eleito o primeiro Superior Geral e, até sua morte em 1556, governou a Ordem com prudência, energia e uma enorme capacidade de adaptação.

"Encontrar Deus em todas as coisas"

O coração da espiritualidade inaciana é a certeza de que Deus não está apenas nos momentos de oração formal, mas se faz presente em todas as criaturas e em todas as circunstâncias. "Encontrar Deus em todas as coisas" é o convite para um olhar contemplativo sobre a realidade. O trabalho, o estudo, a convivência familiar, as provações e as alegrias — tudo pode ser matéria-prima para o encontro com o divino, se vivido com a consciência de que "em tudo amar e servir".

Essa mística do cotidiano é particularmente relevante para o homem moderno, que vive dividido entre a espiritualidade e a vida secular. Inácio nos ensina que não precisamos sair do mundo para encontrar Deus; basta-nos encontrar a Deus no mundo, discernindo a sua vontade nos acontecimentos concretos da nossa história.

O Discernimento e a Saúde Mental

A contribuição de Inácio para a psicologia é indireta, mas profundíssima. Suas "Regras para o Discernimento dos Espíritos" são um autêntico mapa da psique humana em seus movimentos rumo ao bem ou ao mal. Ele ensina a distinguir a consolação da desolação, a voz de Deus da voz do inimigo, e a tomar decisões a partir de um coração unificado, e não fragmentado pelos impulsos.

Num tempo em que a ansiedade e a depressão são epidêmicas, as ferramentas inacianas são um bálsamo. O exame de consciência diário, por exemplo, é uma prática de atenção plena (mindfulness) batizada pela graça: parar por alguns minutos para rever o dia, agradecer, perceber as moções interiores e preparar o coração para o amanhã. Isso não apenas ajuda a crescer na vida espiritual, mas também ordena a mente, tira a pessoa do piloto automático e a reconcilia com a sua própria história.

Oração Final: A Oferta de um Coração Generoso

Inácio deixou-nos uma oração que é a súmula da sua espiritualidade: a "Oração de Generosidade" ou "Tomai, Senhor, e recebei".

"Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo; Vós me destes, a Vós, Senhor, o restituo. Tudo é vosso, disponde de tudo segundo a vossa vontade. Dai-me o vosso amor e a vossa graça, que esta me basta."

Que a exemplo do peregrino de Loyola, saibamos deixar as armas da autossuficiência para nos alistarmos na milícia pacífica do Amor Divino.

Santo Inácio de Loyola, rogai por nós!