Evangelho do Dia Comentado: Lc 7,31-35 – A Sabedoria que é Justificada pelos Filhos | Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026

Jesus compara sua geração a crianças insatisfeitas: rejeitaram João por ser austero e a Ele por ser acolhedor. Uma reflexão sobre a caridade, os mártires e a sabedoria de Deus.

EVANGELHO DO DIA COMENTADO

CatolicoHoje - Pe. Xavier

9/16/20265 min ler

Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 7,31-35

Naquele tempo, Jesus disse: “Com quem vou comparar a gente de hoje? A quem se parecem? São como crianças sentadas na praça, que gritam umas às outras: ‘Tocamos flauta para vós e não dançastes; entoamos lamentações e não chorastes’. Pois veio João Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: ‘Ele está possuído por um demônio!’ Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: ‘Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores!’ Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”.

A geração que não se deixa tocar

Jesus olha para a sua geração e faz um diagnóstico desconcertante. Ele compara os seus contemporâneos a crianças caprichosas sentadas na praça, que não se agradam com nada. Tocam flauta — e ninguém dança. Entoam lamentações — e ninguém chora. A imagem é de uma insatisfação crônica, de uma recusa em entrar no jogo da vida, de um coração fechado a qualquer proposta que venha de fora.

A palavra grega para “praça” é agorá, o centro da vida pública, onde as crianças brincavam e os adultos negociavam. Jesus situa a sua crítica no coração da convivência social. A sua geração não é má por ignorância, mas por má vontade. Escolheu não se deixar tocar. Escolheu a indiferença como escudo.

João Batista veio pelo caminho da ascese: não comia pão nem bebia vinho, vivia no deserto, vestia-se de pelos de camelo. Era o profeta austero, o novo Elias. E o acusaram de estar possuído por um demônio. Jesus veio pelo caminho da proximidade: comia e bebia com os pecadores, entrava nas casas, tocava os leprosos. E o acusaram de ser comilão e beberrão. A geração recusou os dois extremos porque, no fundo, recusava a Deus. Não era o estilo que incomodava; era a verdade que os interpelava.

A sabedoria justificada pelos filhos

O Evangelho termina com uma frase enigmática: “A sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”. A palavra grega é edikaiōthē, “foi justificada”, “foi reconhecida como justa”. A sabedoria de Deus — que se manifesta tanto na ascese de João quanto na acolhida de Jesus — não é reconhecida pela geração incrédula, mas pelos “filhos” da sabedoria, aqueles que a acolhem e a vivem.

Quem são esses filhos? São os que se deixam tocar pela flauta e dançam; os que ouvem o lamento e choram. São os discípulos, os publicanos convertidos, as mulheres que seguiam Jesus, os pecadores que reconheceram a sua miséria e se abriram à graça. A sabedoria não se impõe; ela se revela na vida dos que a praticam. A melhor apologética não é o argumento, mas o testemunho.

A correlação com a primeira leitura: o amor que dá sentido

A primeira leitura, o hino da caridade de São Paulo (1Cor 12,31-13,13), ilumina essa cena de modo impressionante. Paulo escreve: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse a caridade, seria como bronze que soa ou como címbalo que retine”. A geração de Jesus tocava flauta, mas não tinha caridade. Fazia barulho, mas não amava. Criticava João e Jesus, mas não se deixava converter.

O hino da caridade é a resposta à insatisfação crônica. A caridade “é paciente, é benigna, não é invejosa, não se vangloria, não se enche de orgulho, não é interesseira, não se irrita, não guarda rancor”. A geração que não dançava nem chorava era uma geração sem caridade. E sem caridade, nenhuma música é agradável, nenhum lamento encontra eco.

Paulo conclui: “Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade. Mas a maior delas é a caridade”. A sabedoria de Deus é justificada pelos filhos que vivem a caridade. Não pelos que tocam flauta sem dançar, mas pelos que dançam com os que dançam e choram com os que choram. A caridade é o critério da autenticidade cristã.

Os santos Cornélio e Cipriano: a caridade que se fez mártir

Hoje a Igreja celebra Santos Cornélio, papa, e Cipriano, bispo de Cartago, mártires do século III. A vida deles é um comentário vivo do Evangelho e da primeira leitura. Cornélio foi eleito papa em 251, num tempo de perseguição e divisão. Cipriano, bispo de Cartago, era um homem de grande cultura e coragem. Inicialmente, houve tensão entre eles por causa da questão dos lapsi — os cristãos que haviam negado a fé durante a perseguição. Cornélio era mais brando, disposto a acolher os arrependidos; Cipriano, mais rigoroso, exigia penitência. Mas ambos eram homens de caridade, e acabaram por se reconciliar e trabalhar juntos pela unidade da Igreja.

Cornélio foi exilado e morreu mártir em 253. Cipriano foi decapitado em 258. Os dois selaram com o sangue a fé que professavam. A caridade que os uniu não era um sentimento vago; era a decisão de dar a vida pelos irmãos. Eles são “filhos da sabedoria” porque viveram a caridade até o fim. Não tocaram flauta para uma geração indiferente; deram a vida para que a geração seguinte pudesse dançar.

Cipriano escreveu palavras que ecoam o Evangelho de hoje: “Não pode ter Deus como Pai quem não tem a Igreja como mãe”. A caridade é o vínculo da unidade. Os mártires não morreram por um ideal abstrato, mas por amor a Cristo e à sua Igreja. A sabedoria foi justificada neles, porque a sua vida foi um testemunho vivo da caridade.

A sabedoria que se justifica em nós

O Evangelho de hoje nos interpela diretamente. Somos como as crianças da praça, que não se agradam com nada? Rejeitamos a ascese de João e a acolhida de Jesus? Ou somos filhos da sabedoria, que reconhecem a voz de Deus em qualquer que seja o instrumento?

A caridade é o critério. Sem ela, somos bronze que soa. Com ela, somos filhos da sabedoria, justificados pelo amor. Os mártires Cornélio e Cipriano nos mostram que a caridade não é apenas um sentimento, mas uma decisão que se prova na hora da crise. Eles não dançaram ao som da flauta do mundo; dançaram ao som da flauta de Deus, mesmo quando o mundo os condenava. E a sua dança foi o martírio.

Breve Oração ou Propósito Prático

Senhor Jesus, que denunciaste a geração insatisfeita e nos chamaste a ser filhos da sabedoria, dá-me um coração aberto à Tua voz. Que eu não rejeite os Teus mensageiros, nem os austeros nem os acolhedores. Por intercessão de Santos Cornélio e Cipriano, mártires da caridade e da unidade, ensina-me a viver o amor que dá sentido a tudo. Hoje, quero praticar a caridade de modo concreto: serei paciente com alguém que me irrita, ou chorarei com quem chora, ou dançarei com quem se alegra. Amém.