Evangelho do Dia Comentado: Mt 18,21-35 – Perdoar Sem Limites | Quinta-feira, 13 de Agosto de 2026
Pedro pergunta quantas vezes perdoar. Jesus responde com a parábola do servo que, perdoado, se recusa a perdoar. Uma reflexão sobre a dívida imensa e a misericórdia que liberta.
EVANGELHO DO DIA COMENTADO
CatolicoHoje - Pe. Xavier
8/13/20266 min ler


Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 18,21-35
Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Por isso, o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar contas com os seus empregados. Quando começou o acerto, trouxeram-lhe um que devia dez mil talentos. Como não tivesse com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher, os filhos e tudo o que possuía, para assim pagar a dívida. O empregado, porém, caiu aos seus pés e, prostrado, suplicava: ‘Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo’. O senhor, cheio de compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida. Ao sair dali, aquele empregado encontrou um dos seus companheiros que lhe devia apenas cem denários. Ele o agarrou, começou a sufocá-lo e dizia: ‘Paga o que me deves’. O companheiro, caindo a seus pés, suplicava: ‘Tem paciência comigo, e eu te pagarei’. Mas o empregado não quis saber. Foi embora e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia. Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que tinha acontecido. Então o senhor mandou chamar aquele empregado e lhe disse: ‘Servo mau, eu te perdoei toda a tua dívida, porque me suplicaste. Não devias também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive de ti?’ E, indignado, o senhor entregou-o aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. Assim também fará convosco o meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar de coração ao seu irmão”.
A pergunta de Pedro e o infinito do perdão
Pedro se aproxima de Jesus com uma pergunta que é também a nossa: “Quantas vezes devo perdoar?”. Ele propõe um número generoso para os padrões rabínicos, que recomendavam perdoar até três vezes: “Até sete vezes?”. Pedro, que gostava de se adiantar, talvez esperasse um elogio do Mestre. Mas Jesus amplia o horizonte para além de toda contabilidade: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”.
O grego hebdomekontákis heptá é um hebraísmo que ecoa Gn 4,24, onde o desejo de vingança de Lamec é “setenta vezes sete”. Jesus inverte a espiral: onde o mundo multiplica a vingança, o discípulo multiplica o perdão. Não se trata de fazer uma conta literal (490 vezes), mas de romper a própria lógica da contagem. O perdão cristão não é aritmética; é um modo de ser. Quem conta quantas vezes perdoa ainda não entrou no espírito do Reino. O perdão é um fluxo contínuo, uma atitude permanente.
Dez mil talentos: a dívida impossível
Jesus conta a parábola do rei que acerta contas. O primeiro servo deve “dez mil talentos” — myríōn talántōn —, uma quantia astronômica. Um talento equivalia a cerca de 34 quilos de prata; dez mil talentos, portanto, representam um valor incalculável, que nem o mais alto funcionário do reino poderia quitar em muitas vidas. É a imagem da nossa dívida diante de Deus: impagável, infinita. Cada pecado, por menor que pareça, é uma ofensa ao Infinito. Nenhum ser humano pode “pagar” a Deus. Só a misericórdia pode cancelar essa dívida.
O servo, no entanto, não percebe a desproporção. Cai aos pés do rei e suplica: makrothymēson ep’ emoí — “Tem paciência comigo”. O verbo makrothyméō significa literalmente “ter ânimo longo”, “ser lento para a ira”. É a paciência de Deus, que não nos trata segundo os nossos pecados. E o rei — imagem do Pai — vai além do pedido: não apenas tem paciência, mas splanchnistheís — “cheio de compaixão” —, sente uma dor entranhável, e aphēken autōi to dáneion — “soltou-o e perdoou-lhe a dívida”. O verbo aphíēmi, “perdoar”, significa também “soltar”, “deixar ir”. O perdão de Deus é um desatar de correntes. O servo sai livre, sem dívida, reabilitado.
Cem denários: a pequena dívida do irmão
Mas, ao sair, o servo perdoado encontra um companheiro que lhe deve hekatòn dēnaria — “cem denários”. Um denário era o salário de um dia de trabalho; cem denários, cerca de três meses de salário. Uma dívida real, mas ridícula diante dos dez mil talentos. A desproporção é absurda: o perdoado de uma fortuna incalculável estrangula o que deve uma ninharia.
O gesto é descrito com violência: ekrátei autòn épnigen — “agarrou-o, começou a sufocá-lo”. O verbo pnígō, “sufocar”, é o mesmo que se usa para o afogamento. A falta de perdão asfixia tanto o devedor quanto o credor. O companheiro, por sua vez, repete as mesmas palavras que o primeiro servo dissera ao rei: “Tem paciência comigo, e eu te pagarei”. A cena é um espelho: a súplica é a mesma, mas o coração que a acolhe é diferente. O rei perdoou; o servo não.
Os outros empregados, entristecidos, denunciam o ocorrido ao senhor. A cena é solene: lypoúmenoi — “muito tristes”. A dureza de coração de um membro fere a comunidade inteira. O senhor chama o servo e o repreende com uma pergunta que é o centro da parábola: “Não devias também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive de ti?”. O verbo eleēsai — “ter misericórdia” — era o que o servo pedira ao rei, mas não soube dar ao irmão. A misericórdia recebida e não partilhada é uma misericórdia abortada.
O perdão de coração: a condição para a liberdade
Jesus conclui com uma advertência solene: “Assim também fará convosco o meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar de coração ao seu irmão”. A expressão “de coração” — apò tōn kardiōn hymōn — é a chave de tudo. Não basta o perdão formal, de fachada, que diz “eu perdôo” mas guarda mágoa. É preciso um perdão que brota do centro da pessoa, que renuncia ao ressentimento e entrega a justiça a Deus.
O perdão não é sentimentalismo, nem compactuação com o mal. É a decisão de não desejar o mal do outro, de não se deixar dominar pela ofensa, de romper a espiral de violência. É, antes de tudo, um ato de memória: lembrar que fomos perdoados de dez mil talentos para não estrangular quem nos deve cem denários. O servo da parábola esqueceu-se do que recebera. A memória da misericórdia é a fonte do perdão fraterno.
Um espelho para a nossa vida
A parábola nos julga. Todos os dias rezamos no Pai-Nosso: “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Mas vivemos essa petição? Ou nos assemelhamos ao servo que, saindo do confessionário, encontra o irmão e o sufoca com frieza, indiferença ou ressentimento?
A falta de perdão é uma prisão que nos adoece física e espiritualmente. A psicologia confirma: a ruminação do ressentimento eleva o estresse, corrói a saúde mental, envenena os relacionamentos. Perdoar não é esquecer — a memória não se apaga por decreto —, mas é lembrar sem ódio. É tirar o ofensor do centro dos pensamentos e devolver esse centro a Deus. É abrir a porta da cela onde nós mesmos nos trancamos.
Jesus não está a dizer que o perdão é fácil. Ele é um dom e uma conquista. Mas a graça nos foi dada: fomos perdoados de dez mil talentos. A pergunta que ecoa é simples e terrível: o que temos feito com a misericórdia recebida?
No próximo domingo será a celebração da Assunção de Nossa Senhora, assista à canção do nosso canal:
Breve Oração ou Propósito Prático
Senhor Jesus, que me perdoaste a dívida impagável dos meus pecados, dilata o meu coração para perdoar os irmãos que me devem tão pouco. Liberta-me do ressentimento, da contagem e da mágoa. Hoje, quero rezar por alguém que me feriu e, se possível, dar um passo concreto de reconciliação — uma palavra, uma prece, um gesto de paz. Que a memória da Tua misericórdia me torne misericordioso. Amém.

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